Fala gentileza!!!!

Neste espaço, publicaremos textos e artigos que possam provocar maiores reflexões sobre a arte do palhaço e sua intervenção no hospital.

Metodologia e práticas:

A poética do palhaço:



Através de anos de experiência como clown e professor, tenho descoberto algumas particularidades do palhaço que se repetem com insistência em sua prática cotidiana. Com o desejo de ser didático tenho sistematizado em pontos que ajudem a compreender o que poderíamos chamar de a poética do clown. Estas são características que nos permitem diferenciar o presente trabalho de outros tipos de obras teatrais e nos dão pistas sobre a sabedoria ou o caminho que percorremos em busca de nosso clown. Para o educador este material deve ser uma espécie de guia a ser consultado com frequência e ver se o código que está trabalhando forma parte da alma do clown. Ou seja, se estamos improvisando verdadeiramente como clowns ou simplesmente fazendo teatro cômico ou jogo dramático.
1. Suas grandes verdades.
• O clown é e sempre deve ser autêntico.
• O clown é sincero e espontâneo.
• O olhar do clown é um espelho ao qual vemos seu interior e o nosso reflexo nele.
• O clown é transparente. Suas intenções podem ser vistas, inclusive quando as tenta esconder.
• O clown é complexo, ou seja, é composto de muitos elementos que compõem os múltiplos traços de sua personalidade, ao qual, confere a ele uma grande riqueza expressiva e pessoal.
2. Suas emoções:
• De todas as emoções que habitam um clown, uma é indispensável: a ternura.
• No registro emocional de um clown, ele pode passar de um estado a outro com a mesma velocidade que o sente dentro de si.
• O clown não tem consciência de exagerar. Se isso acontece, é devido a sua paixão, que o faz acreditar na veracidade de seus exageros.
• O clown é dotado de uma boa autoestima. Ele acredita em sua inteligência, mesmo quando ela o trai, o que acontece com bastante frequência.
3. Sua relação no exterior:
• O clown é curioso perante o mundo ao seu redor.
• O Clown não busca os problemas. Eles são encontrados ... constantemente.
• O clown não procura provocar o riso. Isso ocorre como resultado do conflito entre seu espírito e sua lógica, de um lado está à sociedade e por outro os demais.
4. As dualidades:
• O clown condensa em si o Don Quixote e o Sancho Pança. Idealista e pragmático. Sonhador e irreal.
• O clown é uma pessoa de grandes projetos e metas, porém em seu caminho só encontra pequenas coisas que atraem sua atenção e que se convertem em suas prioridades.
• O clown pode ser frágil ou duro, forte ou fraco. Tudo depende do seu humor, motivação, solidão ou companhia.
5. Sua linguagem:
• Na forma de se expressar do clown, uma imagem vale mais que mil palavras.
• No clown, a compreensão e utilização da linguagem se dão de forma lógica e primária.
6. O lado negativo:
• O clown não insulta, ele expõem suas opiniões e / ou emoções através das palavras que desempenham esse papel. Na sua boca, qualquer palavra pode cumprir essa meta: Cantábrico enteléquia, tontornillo, toliliputiense, etecetera e assim por diante.
• O palhaço não transmite violência... Nem mesmo quando tenta ser violento.
• O clown pode se comportar de forma cruel, desde que haja um efeito de distanciamento da verdadeira crueldade para quem o vê (é uma crueldade cômica e não a crueldade real): inconsciência ao fazê-lo, exagero, excentricidade em seu imaginário e na forma de executá-lo...
7. Suas ações:
• No comportamento do clown, não existem besteiras. Tudo que faz tem uma justificativa, a sua. Isso faz com que qualquer de seus atos, incluindo o mais absurdo, se torne algo normal.
• O clown permanece em constante estado de alerta, ou seja, isento de qualquer obrigação de fazer algo, porém pronto para responder a qualquer estímulo que se manifeste.
• O clown encontra sempre uma solução para qualquer problema, embora seja uma solução clownesca. Sendo assim, uma ação impensável para qualquer outra pessoa, mas satisfatória para ele e condizente com sua natureza.


JARA, Jesus. Metodologia y prácticaI, In: Los juegos Teatrales del Clown. Ed. 1, Buenos Aires, Ediciones Novedades Educativas, 2000. P. 47-49.
Tradução: Rafael Barreiros


Das Vantagens de ser Bobo - Clarice Lispector

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.
O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado
por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando”.
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de
sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.
O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.
O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona.
Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.
Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.
Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros.
Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.
Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida.
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás,
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem
por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.
É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.
É que só o bobo é capaz de excesso de amor.
E só o amor faz o bobo.