domingo, 20 de novembro de 2011

O Espetáculo como encontro.

O Espetáculo como encontro. – O teatro sutil dos palhaços espontâneos.

Por: Rafael Barreiros / Dom Gentileza


Sempre antes de subir a máscara de meu palhaço e entrar em cena, busco esvaziar minha mente e acordar meu corpo. Ao fazer isso, acabo apostando que algo irá acontecer quando meus olhos encontrarem os olhares brilhantes de outro alguém. Para muitos, apostar nesse risco é viver um perigo desnecessário. Mas na arte do palhaço espontâneo esse risco garante toda vitalidade e organicidade de seu trabalho. O ato de errar frente ao público só reforça o encontro verdadeiro do performer com seu espectador. Logo não há o que temer. E este espectador passa a ser o co-autor da obra, pois cada gesto que ele executar será incorporado ao espetáculo, servindo como estímulo para o surgimento de um novo jogo lúdico na cena.
Diferente de outros métodos de palhaço, o palhaço espontâneo busca resgatar o caráter celebrativo da representação. Aqui não há um espetáculo pronto e acabado que será apresentado a um público passivo. Propomos uma representação coletiva onde todos possam desempenhar um papel ativo. Desta forma não há o fazer o espetáculo para, mas o fazer com o público. Até a palavra espectador não cabe mais a essa proposta, sendo substituída pelo neologismo espectator .
A relação narrativa estabelecida nessa proposta não parte do princípio do discurso. Suas bases são construídas segundo a estrutura do diálogo. E isso fica evidente quando podemos apreciar essa ação em espaços como a rua e o hospital. Essa relação horizontal permite que o palhaço seja visto como um parceiro. Ele não busca extrair o riso, nem tão pouco apresentar algo para alguém. Sua proposta é convocar as pessoas a brincar com seu universo, encontrando nesse novo olhar sobre o mundo sua ludicidade e sua poesia. A trivialidade do viver e do brincar com o momento presente transformam-se na maior das poesias sobre a existência. E um pequeno gesto cotidiano pode revelar toda a nossa fragilidade humana.
No hospital essa intervenção do palhaço espontâneo surge como uma das ferramentas mais eficazes na humanização da saúde. Pois o tecnicismo de nossa era fez com que os ambientes destinados a saúde virassem espaços de promoção de doenças. Nele a figura humana tem sua complexidade subtraída e resumida a especialidade de sua enfermidade. E o palhaço possibilita que os profissionais de saúde reconheçam sua sensibilidade humana identificando toda a complexidade do paciente, percebendo que a felicidade promove saúde. Sendo assim o melhor modelo de hospital passa a ser o que se propõem a cuidar de pessoas e não de doenças. Já o paciente encontra na ação do palhaço o retorno das cores de seu humor, quebrando o branco gélido do hospital e permitindo que ele se converta em um espaço lúdico. A lógica absolutamente imaginativa do palhaço convida todos a ressignificar-se, permitindo ver os aparelhos de uma UTI como um vídeo games de última geração , as enfermeiras como garçonetes de uma pizzaria e até transformar o hospital em um grande oceano reconhecendo todos como peixes de qualidades diversas. Ao brincar com seus papéis todos percebem que não são técnicos de saúde e pacientes, mas seres humanos acima de qualquer coisa.
Nas ruas o palhaço espontâneo quebra a marcha urbana, provocando as pessoas a desacelerarem seu ritmo e perceberem sua singularidade e sensibilidade. Dar um abraço em um palhaço pode ser o portal para um grande baile de tango em plena Avenida Paulista ou no centro de New York. Esse teatro mínimo e sincero possibilita que o gesto de olhar no olho do público e sorrir passe a ser um grande espetáculo. Nele é importante que o palhaço deixe muito claro que o foco de seu jogo não é a gag ou a comicidade, mas o encontro. O ridículo da figura do palhaço possibilita que as pessoas percebam a beleza de seus erros e deformidades, quebrando os paradigmas estéticos de nossa sociedade de consumo.
Aqui o cimento que tornou as pessoas cinzas é implodido com o lançar de uma bola vermelha no rosto de um palhaço de olhos brilhantes.
Da mesma forma que esse espetáculo sensível acontece nas ruas e hospitais, nado o impede de ocupar espaços convencionalmente teatrais. Desde que essa proposta cênica não perca a sensibilidade do encontro verdadeiro e do diálogo com o público. As interpretações vaidosas dos palcos não cabem nesse contexto. Sua simplicidade é tal qual a magia de uma criança que se torna invisível somente colocando um saco de tecido preto sobre sua cabeça, como descrito pelo mestre oriental de teatro Yoshi Oida em sua obra O ator invisível. Simplicidade também presente na representação da atriz pernambucana Pollyana de Sá Michelotto ao interpretar o personagem da Ophélia , em seu espetáculo de mesmo nome, propondo um jogo horizontal com seu público e trazendo a beleza de Shakespeare por meio de imagens simples e poéticas. Ou até mesmo a leveza sincera do clown Norte-Americano Avner, em seu número de palhaço, no qual, a fragilidade cômica de seu personagem tentando preparar seu espetáculo, tornava-se o melhor de todos os espetáculos.
Para os que ainda não compreenderam a diferença desse tipo de representação. E acreditam que ela não se difere de tantas outras que habitam nossos teatros. Propomos um exercício simples ao assistir um espetáculo teatral: Tente olhar nos olhos das pessoas ao seu redor, depois tente olhar nos olhos dos atores que estão em cena. Se ao fazer isso, nenhum olhar reconhecer sua presença lá, tenha certeza de que esse não é o espetáculo que propomos. Pois aqui arte e encontro são uma coisa só.

Nenhum comentário:

Postar um comentário